Por Joelmir Beting — Economia

O preço pago ao produtor de leite entrou em 2026 num patamar bem abaixo dos anos anteriores, e a recuperação veio apenas com a alta sazonal da entressafra, entre abril e agosto. O aperto atinge em cheio o maior negócio rural de Pompéu, onde a atividade leiteira sustenta centenas de propriedades e a principal cooperativa da cidade.

Depois de cair por nove meses seguidos até o fim de 2025, o preço do leite ao produtor voltou a reagir no início de 2026, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-Esalq/USP). A "Média Brasil" subiu 5,43% em fevereiro, para R$ 2,1464 por litro — mas, em termos reais, o valor ainda estava 25,45% abaixo do registrado em fevereiro de 2025. A recuperação seguinte foi puxada pela entressafra: com a menor oferta no campo, o preço em Minas Gerais subiu 11,58% em abril, para uma média de R$ 2,45 por litro, enquanto o Índice de Captação de Leite (ICAP-L) recuava 3,4% no país entre março e abril.

Ainda assim, o ano começou no vermelho para quem tira leite. No acumulado de janeiro a abril, a média mineira ficou em R$ 2,36 por litro em 2026, contra R$ 2,84 no mesmo período de 2025 — uma queda de cerca de 17% de um ano para o outro. Em sua análise de perspectivas (Perspec 2026-Leite), o CEPEA resume o momento em uma palavra: o cenário exige cautela.

Produção recorde derrubou o preço

A raiz da queda está na sobreoferta. Em 2025, a produção nacional de leite bateu recorde histórico, com crescimento estimado em 7,2% sobre 2024, enquanto as importações seguiram em volume elevado — um déficit comercial da ordem de 2 bilhões de litros equivalentes, com o leite em pó à frente da pauta importada, segundo levantamento da Embrapa Gado de Leite. O resultado foi um mercado abarrotado de lácteos e preço em queda. Dados do Centro de Inteligência do Leite (Cileite/Embrapa) mostram que, em dezembro de 2025, o litro chegou a R$ 1,99, uma queda de 22,6% em relação aos doze meses anteriores.

Para 2026, a leitura dos pesquisadores é de recuperação lenta. O pesquisador da Embrapa Gado de Leite Samuel Oliveira afirma que os preços internacionais de lácteos seguem baixos e que eventuais movimentos de alta "devem ser percebidos como correções pontuais". Ele recomenda cautela e planejamento estratégico, num ambiente macroeconômico de desaceleração — a projeção de crescimento do PIB é de 1,8% para o ano.

Custo alto do outro lado da porteira

Enquanto o preço oscila, o custo tende a se manter ou subir. A própria alta de abril a agosto tem uma contrapartida: a entressafra encarece a alimentação do rebanho, com menor oferta de pasto e maior necessidade de ração e suplementos justamente no período em que o produtor recebe um pouco mais pelo litro. É a conta que aperta o caixa das propriedades leiteiras de Pompéu.

O peso do leite em Pompéu

Fundada em 1965 para atender produtores de leite, a Coopel — Cooperativa Agropecuária de Pompéu — dá a dimensão da atividade na cidade: reúne mais de 1.700 associados, com mais de 220 fornecedores de leite, e capta cerca de 200,4 mil litros por dia, segundo dados públicos da própria cooperativa. É por esse funil que a queda de preço no campo chega ao caixa do produtor pompeano.

Reportagem construída a partir de dados públicos do CEPEA-Esalq/USP, da Embrapa Gado de Leite (Cileite) e da Coopel.

Por Joelmir Beting — Economia